Quando uma criança nos ensina o significado da inclusão

Há lições que não se aprendem na universidade, nem em livros, nem em conferências sobre inclusão. Aprendem-se no olhar puro de uma criança.

E a lição de hoje é de uma criança, que qualquer uma da sua idade, vive entre brincadeiras, gargalhadas, perguntas sem fim e uma curiosidade que parece não conhecer limites.

Um dia começou a conviver regularmente com outras crianças e jovens com deficiência.

No início, olhava para eles apenas com a curiosidade própria da infância. Uns falavam menos, outros comunicavam através de gestos, alguns precisavam de mais ajuda para caminhar ou para comer. Mas, para ele, nada disso era suficiente para criar distância.

Brincava.

Corria.

Partilhava brinquedos.

Ria das mesmas coisas.

Abraçava quando era preciso.

Nunca perguntou porque um menino era diferente. Nunca perguntou qual era o diagnóstico. Nunca quis saber o nome da patologia.

Porque, com a sua tenra idade, ainda não tinha aprendido aquilo que muitos adultos passam uma vida inteira a praticar: catalogar pessoas.

Foi então que percebi uma verdade desconfortável.

O preconceito não nasce connosco. … É ensinado.

As crianças não veem deficiência, veem pessoas. Não procuram limitações, procuram companheiros para brincar. Não classificam ninguém como “normal” ou “especial”.

Essa necessidade de criar categorias pertence ao mundo dos adultos.

Talvez por isso a inclusão seja, muitas vezes, um problema criado por quem fala demasiado sobre ela.

Gostamos de organizar campanhas, criar dias comemorativos e fazer discursos emotivos. Falamos de igualdade, de direitos e de oportunidades. Mas esquecemo-nos de que a inclusão raramente acontece nos grandes palcos. Acontece nos pequenos gestos.

Acontece quando uma criança convida outra para brincar, sem pensar se ela corre mais devagar.

Acontece quando ninguém fica de fora de um aniversário.

Acontece quando uma escola adapta o ambiente para todos, em vez de esperar que alguém se adapte sozinho.

Acontece quando uma empresa contrata uma pessoa por aquelo que sabe fazer e não pela limitação que possa ter.

Acontece quando deixamos de tratar a diferença como uma exceção.

Os números mostram-nos que ainda estamos longe desse ideal. Em Portugal, cerca de 18% da população com 16 ou mais anos vive com algum tipo de deficiência ou limitação funcional (Pordata).

Apesar da evolução da legislação e das políticas públicas, continuam a existir desigualdades significativas no acesso ao emprego, à educação e à participação social.

A taxa de emprego das pessoas com deficiência continua bastante inferior à da restante população, e muitas enfrentam diariamente barreiras físicas, sociais e, sobretudo…emocionais.

Mas talvez a maior barreira nem seja arquitetónica. …É cultural.

Continuamos a olhar primeiro para a deficiência e só depois para a pessoa.

Continuamos a dizer “apesar da deficiência” quando deveríamos simplesmente dizer “uma pessoa”.

Continuamos a elogiar gestos de convivência como se fossem extraordinários, quando deveriam ser absolutamente normais.

Talvez devêssemos aprender mais com as crianças.

Aquela criança ensinou-me algo que nenhum relatório, nenhuma estatística ou nenhuma conferência conseguiu explicar tão bem.

Um dia, ao falar dos amigos com quem tinha estado, disse simplesmente:

“São os meus amigos.”

Não acrescentou que um tinha síndrome de Down, que outro era autista ou que outro tinha uma deficiência motora.

Porque, para ele, isso nunca foi o mais importante.

E talvez seja exatamente esse o mundo que devemos construir, um mundo onde a diferença não desaparece, porque faz parte da riqueza humana, mas deixa de definir quem somos.

A verdadeira inclusão não acontece quando fazemos sentir alguém especial. Acontece quando ninguém precisa de se sentir diferente para ser aceite.

Talvez o maior desafio da nossa sociedade não seja ensinar as crianças a incluir.

Se calhar, o verdadeiro desafio é impedir que os adultos lhes ensinem a excluir!

Obrigado a essa criança…