João Raimundo: o futuro do ensino superior na Guarda depende da qualidade e da atratividade, não do corte de vagas no litoral

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O antigo presidente do Instituto Politécnico da Guarda (IPG) e atual diretor da Escola Profissional da Guarda, João Raimundo, considera que cortar vagas nas universidades do litoral para as transferir para o Interior “é a pior decisão que alguma vez poderá ser tomada” em nome de um “pretenso espírito de coesão” e garante que tal medida “não resolverá nenhum problema” de instituições como a da Guarda.

É assim que João Raimundo comenta as posições assumidas recentemente por vários intervenientes locais, desde o Conselho Geral do IPG à Assembleia Municipal da Guarda, contra o chamado “despacho de vagas”, que determina um aumento de 5% em todo o ensino superior público, independentemente da sua localização.

O argumento ouvido, por exemplo, na sessão da Assembleia Municipal do final de dezembro, é o de que a ausência de uma diferenciação positiva para o Interior (com menos vagas no litoral e mais no interior) conduzirá a um reforço da procura em Lisboa e no Porto e à continuação do esvaziamento progressivo de politécnicos como o da Guarda.

Para João Raimundo, porém, o problema está a ser analisado a partir de um ângulo errado. Na sua perspetiva, compete antes de mais aos poderes públicos e aos órgãos autárquicos definir estratégias que tornem a cidade atrativa como um todo.

“A atratividade da Guarda, para um estudante do ensino superior, constrói-se dentro e fora dos muros do Politécnico”, defende. “Os poderes públicos devem criar condições para que a cidade seja um destino desejado, com oportunidades, e as escolas superiores devem concentrar-se num objetivo essencial: qualidade e diferenciação.”

O antigo responsável lembra que, se todos os fatores se conjugarem, “os alunos vêm”, tal como acontecia na fase inicial do Instituto Politécnico da Guarda, quando a instituição estava “no topo, a nível nacional”. E sublinha que “não é de ânimo leve que uma família da Guarda faz um esforço financeiro para ter um filho a estudar noutra cidade, passando por cima da opção de ficar perto de casa”.

Na escolha de uma instituição de ensino superior, diz, pesam fatores como “prestígio, exigência, ambição e saídas profissionais”. Por isso, deixa um aviso: “não se pode brincar com o futuro, em nome de um bairrismo sem exigência”.

João Raimundo rejeita também qualquer leitura que coloque a questão como um confronto entre universidades e politécnicos. “Isto não tem a ver com uma menorização dos politécnicos face às universidades”, afirma, lembrando que “há universidades com menor reputação, assim como há politécnicos que se distinguem e são primeira opção dos melhores alunos”.

Na sua análise, “fazer bem” e “fazer diferente” é o verdadeiro segredo, considerando mesmo que “o princípio do fim de algumas instituições do ensino superior politécnico” começou quando “abdicaram da sua matriz original”, passando a sujeitar-se permanentemente à comparação com outros modelos.

As decisões administrativas de diferenciação para o interior são vistas com reservas. João Raimundo recorda que, quando foram instituídas bolsas para atrair alunos, alertou o ministro da tutela de então de que se tratava de um erro. “As medidas artificiais raramente dão bons resultados”, sustenta.

Em conclusão, “é pela qualidade que a Guarda deve lutar, não por mais vagas”. E o desafio convoca toda a comunidade: “tornar a Guarda desejada e primeira opção, antes, durante e, sobretudo, depois de um curso superior”.